Que contexto dar à IA para obter boas respostas
Pouco contexto e a IA inventa, contexto demais e ela se perde. O teste a aplicar a cada informação, com exemplos e uma ficha para reutilizar.
Um marceneiro recebe uma avaliação de uma estrela no Google: uma cliente reclama do atraso na instalação. Ele pede à IA que “responda a esta avaliação negativa” e recebe uma mensagem de desculpas que reconhece falta de profissionalismo e oferece uma compensação. Só que o atraso foi culpa de um fornecedor, a cliente havia sido avisada, e ele não tem a menor vontade de oferecer nada.
A IA fez o que podia com o que tinha. Faltavam duas linhas, e também não adiantava dar vinte. Escolher bem o que se diz a ela exige um pouco de método.
O teste que basta: isso mudaria a resposta?
Para cada informação, faça uma pergunta: se ela fosse diferente, eu quereria uma resposta diferente?
Para o nosso marceneiro, “o atraso veio do fornecedor e a cliente foi avisada no dia 3” muda tudo. “Minha marcenaria foi fundada em 1998” não muda nada, então essa informação fica de fora. O teste evita os dois extremos: o prompt esquelético e a história de vida em que a instrução se afoga.
Eis o pedido revisto:
Redija minha resposta pública a esta avaliação do Google: [COLE A AVALIAÇÃO] Situação real: sou marceneiro autônomo. O atraso na instalação veio de uma entrega do meu fornecedor. Avisei a cliente por telefone dois dias antes, e a instalação foi feita três dias depois. Objetivo: os futuros clientes que lerem esta avaliação devem ver que eu mantenho a calma e aviso quando há um problema. Não ofereço compensação e não quero acusar a cliente. Escreva no máximo 70 palavras, em primeira pessoa, sem fórmulas prontas do tipo “lamentamos profundamente”. Não acrescente nenhum fato que eu não tenha informado.
Os cinco tipos de informação que contam
O contexto útil quase sempre se encaixa em uma destas categorias. Você não precisa preencher todas: aplique o teste a cada uma.
| Tipo | Pergunta a se fazer | Exemplo |
|---|---|---|
| Destinatário | Quem lê ou usa o resultado? | Pais de alunos, diretora financeira, cliente que está conhecendo o produto |
| Situação | O que aconteceu até agora? | Segunda cobrança, primeiro contato, conflito em andamento |
| Objetivo | Como saberemos que deu certo? | Conseguir uma reunião, receber o pagamento, fazer entender uma mudança |
| Já tentado | O que falhou ou foi descartado? | “Já baixamos o preço e não mudou nada” |
| Limites reais | O que não pode mudar? | Orçamento, prazo, regra interna, ferramenta obrigatória |
A categoria “já tentado” é a mais negligenciada. Sem ela, a IA devolve as primeiras ideias que qualquer um teria, justamente as que você já testou.
O contexto técnico: o exemplo do bug
O caso do desenvolvedor mostra bem a diferença entre uma descrição e uma prova. Antes:
Meu app React quebra quando clico em validar. Por quê?
A IA só pode responder com uma lista de causas genéricas. Depois:
Meu formulário React quebra na validação. Ambiente: [FRAMEWORK E VERSÃO], [BIBLIOTECA DE FORMULÁRIO]. Comportamento esperado: [O QUE DEVERIA ACONTECER]. Comportamento observado: [O QUE ACONTECE]. Mensagem de erro exata: [COLE O ERRO] Código envolvido: [COLE O COMPONENTE, SEM CHAVES NEM SEGREDOS] Já verificado: [O QUE VOCÊ TENTOU]. Dê as duas causas mais prováveis, como confirmar cada uma e depois a correção. Se você precisar de outro arquivo para decidir, peça-o antes de propor uma correção.
A lógica vale fora do código. Uma professora que quer adaptar um exercício não dirá “meus alunos não conseguem”, mas colará o enunciado, duas respostas erradas típicas e o que já foi explicado em sala. Os fatos brutos valem mais do que a sua interpretação, porque a IA pode enxergar neles algo diferente do que você enxerga.
Quando o contexto vira problema
Mais contexto nem sempre dá respostas melhores. Três armadilhas se repetem.
O contexto que enviesa. “Tenho certeza de que o problema vem do software novo” empurra a IA a chegar a esse resultado. Se você procura uma opinião, apresente os fatos e guarde a sua conclusão para si até receber a resposta.
O contexto longo demais. Um documento inteiro colado para uma pergunta sobre duas páginas pode afogar o que importa, e cada ferramenta tem um limite do que consegue manter em mente, como explica nosso artigo sobre tokens e janela de contexto. Cole o trecho útil sempre que puder. Para grandes volumes, existem métodos para trabalhar com documentos longos.
O contexto que nunca deveria estar ali. Uma contadora que quer redigir uma carta difícil a um cliente não precisa colar o próprio nome, o número do CNPJ e o balanço. “Cliente A, microempresa da construção civil, caixa apertado” costuma bastar. Antes de enviar, releia o que você colou e veja o que não se deve dar a um chatbot. Para dados pessoais ou confidenciais, verifique os termos da ferramenta e as regras da sua organização.
Deixe a IA dizer o que falta
Nem sempre você sabe o que especificar, sobretudo num assunto novo. Acrescente esta instrução ao final do pedido quando o trabalho for importante:
Antes de responder, liste as informações que faltam e que realmente mudariam a sua resposta, no máximo cinco, indicando para cada uma de que forma ela a mudaria. Aguarde as minhas respostas antes de redigir.
A parte “de que forma ela a mudaria” impede aquela lista longa de perguntas só para constar.
Escreva sua ficha de contexto de uma vez por todas
Algumas informações voltam em todo prompt: sua atividade, seus clientes, seu jeito de escrever. Redija-as uma vez, em dez linhas, num documento à parte. Eis um modelo:
Minha atividade: [PROFISSÃO, PORTE, REGIÃO]. Meus clientes ou leitores habituais: [DESCRIÇÃO]. O que ofereço: [SERVIÇOS OU PRODUTOS]. Meu jeito de escrever: [TRATAMENTO POR “VOCÊ” OU “O SENHOR/A SENHORA”, TOM, PALAVRAS A EVITAR]. O que eu nunca faço: [PROMESSAS EXCLUÍDAS, ASSUNTOS A EVITAR].
Cole-a no início das suas conversas ou salve-a nas instruções personalizadas, se a sua ferramenta permitir. Preencha esta ficha hoje, retire o que não passa no teste e não coloque nela nada que você não colocaria na sua página inicial.